15h10 CET
06/03/2026
Há figuras do Sport Lisboa e Benfica que mereceriam ir ao centro do relvado do Estádio da Luz a cada jogo, só para sentirem como a nação benfiquista os estima, guarda, recorda e, claro está, idolatra.
Não haverá adepto encarnado que não veja em António Simões, Humberto Coelho, José Henrique, Vítor Martins, João Alves e António Bastos Lopes nomes à altura dessa recompensa.
Shéu – também alguém que seria sempre merecedor dessa honra – partilha dessa ideia e, embora não na relva da Catedral, juntou essas 6 enormes referências da nossa história num almoço de amigos no 1904 Benfica Hotel: um "encontro de recordação no sítio onde tudo começou", como o próprio o descreveu, numa referência à antiga sede do Clube.
Antes de sentarem à mesa do Café de São Bento, o restaurante do espaço hoteleiro, António Bastos Lopes e José Henrique, os primeiros a chegar, visitaram os "seus quartos", aqueles que os homenageiam.
Bastos Lopes mostrou-se surpreendido com a transformação do local. "Quem diria... O que fizeram disto...", soltou o antigo defesa.
No momento em que folheavam o enorme livro da história do Benfica, que se encontra à entrada – e já depois de António Simões e Vítor Martins chegarem e encaminharem-se para o restaurante –, Shéu surpreendeu os antigos companheiros.
Pouco depois dos abraços, aquele que foi jogador, técnico e dirigente das águias, não perdeu tempo e começou a contar-nos uma história sobre José Henrique: "Em Viseu... encostado ao poste da baliza, começa 'ai, ai e ai'. O massagista chegou lá e deu-lhe uma injeção."
O antigo guarda-redes seguiu a recordar a peripécia: "Estava um frio e a chover... O jogo nem chegou ao fim."
"Estávamos a ganhar 0-1, nem se viam as linhas. Eles não quiseram acabar com o jogo... levaram 7, depois!", lembrou Bastos Lopes.
Tal e qual os golos, ou seja, nunca são demais, essa história desenrolou outras e levou-nos até ao divino balneário dos anos 60 e 70 do Sport Lisboa e Benfica.
O mais velho, José Henrique, brincou com a juventude dos antigos companheiros: "Cheguei aqui em 1959! Quem é que os assoava? Era eu, claro!"
António Bastos Lopes lembrou a disposição e divisão do espaço. "As pessoas não sabiam, nem se apercebiam do que era a cabina antes. Era uma de um lado esquerdo, outra do lado direito e o posto médico e o roupeiro no meio. Havia um longo corredor que ligava os dois", lembrou.
Algumas histórias partilhadas – total ou parcialmente –, momento então para perceber o que estas nunca velhas, mas sempre glórias tinham a dizer sobre esta reunião.
"Estar aqui... estou em casa! Lembro-me que quando era júnior, vínhamos aqui receber o ordenado, jogar bilhar. Naquele tempo era a sede do Benfica, e são momentos extraordinários que vivi na minha carreira. Vir aqui é tornar possível uma coisa que era para desaparecer e que agora reaparece. Vai rejuvenescer-me, faz-me pensar que ainda estou nos Juniores"
Humberto Coelho
Como que num esquema tático, começamos pelo guarda-redes, neste caso, José Henrique. Zé Gato, como ainda hoje é conhecido e carinhosamente tratado pelo universo vermelho e branco, falou na "alegria" que é recordar "os bons tempos com a malta com quem jogou no Benfica".
"Eu ainda estive aqui 6 ou 7 anos. Portanto, é boa recordação. Isto não era assim como está. Agora está como o hotel, antigamente era o escritório e era o departamento de futebol. Vínhamos aqui receber todos os meses. Isto faz-me recordar os meus tempos da época 1959/60. O Shéu lembrou-se, em boa hora, de fazer este convívio entre antigos jogadores que jogaram com ele. Eu ainda tive a honra e o prazer de jogar com o Shéu, e de os aceitar no Benfica, quando eles chegaram, porque eu era muito mais velho. É uma alegria, para mim, estar aqui a recordar estes tempos", reconheceu.
Mais à frente, quer no tempo, quer no campo, Humberto Coelho, atual vice-presidente do Clube e antigo defesa central, disse que este reencontro foi "uma ideia brilhante do Shéu".
"Estar aqui... estou em casa! Lembro-me que quando era júnior, vínhamos aqui receber o ordenado, jogar bilhar. Naquele tempo era a sede do Benfica, e são momentos extraordinários que vivi na minha carreira. Vir aqui é tornar possível uma coisa que era para desaparecer e que agora reaparece. Vai rejuvenescer-me, faz-me pensar que ainda estou nos Juniores", disse, a sorrir.
Tendo em conta que a antiga sede "estava um pouco degradada", embora sendo "mítica", Humberto Coelho vê no novo espaço algo "extraordinário".
"As pessoas que trabalhavam aqui – o senhor Rato e a dona Maria –, eram pessoas que estavam aqui há muitos anos. Eram pessoas dedicadas, competentes. Ficava sempre aqui um tempinho, a jogar bilhar, com alguns colegas, alguns adeptos. Passávamos aqui momentos muito agradáveis. Hoje há aqui muita gente a trabalhar. Esta transformação foi extraordinária, na medida em que isto é um hotel de requinte, está bonito. Já vi os quartos, e, de facto, estão ótimos. É mais uma propriedade do Benfica que tem qualidade. Gosto de vir cá. Estive na inauguração e irei cá vir mais vezes", perspetivou.
Fez muitas vezes dupla com o capitão Humberto Coelho, e, também aqui, está ao seu lado. António Bastos Lopes recordou os "muitos anos de amizade" que têm com Shéu, com quem vê "praticamente todos os jogos na Luz".
"Quando ele me fez este convite para vir ver aquilo que era a antiga sede... claro que gostava de conhecer. Conheci quando era miúdo, vínhamos aqui para receber na altura, quando quase não nos conhecíamos uns aos outros. Agora, é uma coisa que está transformada. É uma coisa linda. No fim de contas, este hotel é um museu do Benfica. Ao ver o meu quarto, o do Zé Henrique e de outros colegas e de atletas que já não estão cá, infelizmente, arrepiei-me todo. Toca. Mexe muito ainda comigo, porque vivi uma vida inteira com eles. Eu tenho 72 anos de vida e de sócio do Benfica", lembrou.
Já no andar de cima, despertando a curiosidade dos presentes no restaurante – não perderam a oportunidade de tirar uma fotografia e trocar algumas palavras com estas lendas vivas do Clube –, ouvimos então as figuras do meio-campo.
Vítor Martins, considerou ser "uma maravilha estar rodeado de todos estes amigos".
"Sinto muito orgulho em estar aqui. Não estão aqui todos, mas é sempre bom recordar. O Shéu é 100% meu amigo. E de todos. Gosto muito dele", afirmou.
Também no miolo, João Alves, além de dizer que recebeu "o convite com muito agrado", não se coibiu de meter o antigo companheiro em despesas. "Vai ter de pagar a conta", atirou, entre gargalhadas, antes de enaltecer o "fabuloso" e merecedor "de ser visitado" 1904 Benfica Hotel.
Histórias e memórias, claro está, não faltam ao eterno luvas pretas: "Muito boas recordações. Era aqui que nós vínhamos receber o nosso pequeno salário. Eu, na altura, era juvenil. Mas aquele dinheirinho era muito importante para fazer face às despesas. Aqueles que não eram de Lisboa, moravam no lar do jogador, que era o meu caso. Vínhamos de elétrico para a Baixa para receber o nosso saláriozinho. Vinha a malta quase toda naquele dia. É recuar no tempo. Foi uma altura das nossas vidas em que estávamos a começar toda uma carreira, cheia de sonhos. Adorei que o Shéu me tivesse feito o convite."
"Há gente que continua a ter sensibilidade e o Shéu representa bem isso. Tem jeito e é unânime. Toda a gente tem ideia daquilo que foi o Shéu e o respeito e o carinho que têm por ele. Tendo por ele também estamos a ter pelos outros e pelo Clube"
António Simões
No ataque... o mais jovem campeão europeu de clubes de sempre: António Simões, que foi rápido a descrever esta reunião. "Isto é ter memória e respeitar a história. É reconhecimento do clube que representámos durante muito tempo. Além de ser justo, é bonito. É saber cultivar os valores do Clube – nós representamos isso mesmo. Para além da amizade entre todos, o privilégio de ter jogado durante muito tempo, são milhares de jogos. É muito bom e é muito bonito fazer-se estes encontros", enalteceu.
O amigo Shéu não escapou e um grande elogio: "Há gente que continua a ter sensibilidade e o Shéu representa bem isso. Tem jeito e é unânime. Toda a gente tem ideia daquilo que foi o Shéu e o respeito e o carinho que têm por ele. Tendo por ele também estamos a ter pelos outros e pelo Clube", reconheceu.
Tal como os parceiros na história do Clube, também António Simões tem memórias da antiga sede, fazendo, inclusive, uma viagem ao passado.
"Aqui onde estamos era a sala de bilhar. Lá em baixo, à esquerda, quando entrava, estava a dona Maria, o senhor Teixeira e o senhor Rato. O primeiro contrato que eu celebrei e assinei foi aqui, lá em baixo. São ideias e memórias que até devemos partilhar com os outros. Acho que é importante que se conte a história aos mais jovens, sobretudo para saberem como é que se escreveu a história do Clube, para saberem quantos antes de nós fizeram o Sport Lisboa e Benfica", avaliou.
António Simões assinou a ideia de que parte do Benfica está sentada àquela mesa. "É apenas uma parte, mas é uma parte gloriosa. E, por isso, mesmo tem que ser lembrada. Não se pode ganhar sempre, nós sabemos que isso é assim, nem todas as gerações são iguais, nem todas têm o mesmo talento ou oportunidade. Mas, tudo aquilo que está ligado à glória, transmita-se, e isso pode ser um estímulo para os mais jovens quererem representar o nosso querido clube", observou.
Todos à mesa, todos em conversa, foi então o momento de Shéu pegar na palavra, com a mesma mestria com que sempre pegou na bola.
"A nossa pele é a pele do Benfica, é o Benfica. Criei um pequeno critério: tinha a ver quem era mais antigo e quem é que era do meu tempo – uns e outros estão no mesmo patamar. Pensei em tentar encontrar aqui um grupo que possa ir lá recordar esse tempo. Fui telefonando e a adesão e a motivação foram fantásticas. Percebi que era uma coisa que podia andar. Anonimamente vim ao hotel – tentei fazê-lo porque não conhecia ninguém, as pessoas não têm de nos conhecer – e tudo foi fácil de organizar", contou.
Reunião de amigos? De figuras do Benfica? De amigos que são figuras do Benfica? Ou de figuras do Benfica que são amigos? A esta nossa questão, Shéu respondeu com a sua definição de amigo.
"Muitas vezes, queremos explicar o que é isso de amigo. É ir à casa da pessoa? É estar todos os dias com ele? Telefonar todos os dias? Até pode não ser isso. E depois muitas vezes chegamos à conclusão de que falámos uma vez por ano. Mas são pessoas que estão na nossa pele. Há coisas que nos ligam que são inexplicáveis; difíceis de explicar. Há coisas que fomos aprendendo com eles: uns dizendo coisas, dando exemplos, uns não dizendo nada. Mesmo não dizendo nada, nós encontrávamos forma de interpretar esse silêncio como uma escola, que nos ensinava a ter que interpretar onde é que se queria chegar. E nós íamos. Até encontrar o nosso limite", explicou.
Aqueles que o receberam e o inspiraram na Luz quando, muito menino, chegou vindo de Moçambique, mereceram uma pequena individualização.
"O Simões era um jogador inigualável – fintava para a direita, fintava para a esquerda... eu não finto assim, eu não vou lá chegar. O Humberto Coelho saía de central, fazia superioridade numérica, e chegava aos jogos difíceis e ele marcava um golo de cabeça – eu não tenho essa característica, não vou lá chegar. O Toni – que estava também convidado, não virá [Shéu mostrou um vídeo de Toni a justificar a ausência] –, era um poço de força – mas eu não tenho força, eu não vou lá. O Zé Gato, o José Henrique... defendia tudo. O Bastos Lopes fazia carrinhos no cimento, saía com as nádegas todas vermelhas – eu não sou esse jogador, não vou lá. Mas muitos de nós chegámos lá. Porque através desta observação, fomos aprendendo. Mesmo com aqueles com quem não falávamos", detalhou.
"A nossa pele é a pele do Benfica, é o Benfica. Criei um pequeno critério: tinha a ver quem era mais antigo e quem é que era do meu tempo – uns e outros estão no mesmo patamar. Pensei em tentar encontrar aqui um grupo que possa ir lá recordar esse tempo"
Shéu
Já em amena cavaqueira, chegou à memória algo que demonstra bem o espírito desta geração de atletas, que tanto engrandeceu – e engrandece – o Sport Lisboa e Benfica, personificando na perfeição o nosso lema: E Pluribus Unum.
"Há um com quem discutia o lugar, e ele sabe perfeitamente o que nós fizemos, há uns anos. Como naquela altura não havia tantas camisolas como há hoje, chegou o fim da época e cortámos a camisola ao meio. Eu fiquei com uma metade e ele ficou com a outra metade. O Vítor [Martins] que me dá a enorme alegria de estar aqui presente", recordou.
Como em qualquer balneário, também a hora do almoço foi 100% reservada para os futebolistas, as nossas lendas, os nossos artistas – e de tão grande jaez são estes –, que certamente recordaram muitas histórias, quase tantas como as sem-fim que escreveram no glorioso livro do Sport Lisboa e Benfica.
Antes, ainda testemunhámos Shéu a agradecer a António Simões, a António Bastos Lopes, a Humberto Coelho, a João Alves, a José Henrique e a Vítor Martins.
Obrigado nós, a todos vós, senhor Shéu!