Revelando o feeling positivo sentido antes mesmo do apito inicial, quando os adeptos receberam a equipa em grande estilo, Marco Silva elogiou o compromisso dos jogadores e a eficácia do plano tático na vitória histórica do Benfica no reduto do AC Milan, por 0-2, na 1.ª jornada da fase de liga da Liga Europa.
A primeira vitória de sempre do Benfica frente ao AC Milan teve no coletivo um dos seus pilares. Nas primeiras declarações após o triunfo em San Siro, na zona de entrevistas rápidas da Sport TV, o treinador das águias enalteceu a resposta dos jogadores chamados a assumir maior protagonismo e, sobretudo, a capacidade da equipa para interpretar um plano tático específico, construído em poucos dias para responder às características dos rossoneri.
"Agora é fácil falar, mas eu disse-vos desde a primeira hora que só faz sentido assim. Mas, mais do que dizer-vos a vocês, os jogadores sabem o que ouviram desde o primeiro dia em que eu cheguei ao Benfica. Nós não poderemos ter uma época boa, positiva, só com 11, 12 jogadores. E os jogadores têm de perceber isso. Eu sei que quem não joga tanto não pode estar satisfeito, e eu gosto dessa insatisfação, no bom sentido. Se for dentro dos limites, e tem sido, sinceramente, isso só demonstra a capacidade que eles têm de perceber a dimensão do clube onde estão e que podemos lutar em muitas competições pelos nossos objetivos. É um grande trabalho. Um grande trabalho tático da equipa. Sinceramente, eu sabia que, em algumas alturas do jogo, a falta de energia iria começar a aparecer em alguns jogadores que não têm jogado tanto. Foi claro em alguns jogadores com cãibras, noutros jogadores com um desgaste enorme. Mas um grande trabalho tático da equipa. Perceberam perfeitamente, com pouco tempo do último jogo com o Gil Vicente para hoje, aquilo que nós teríamos de fazer de diferente em termos táticos, principalmente no posicionamento defensivo. Com bola, fomos praticamente a mesma equipa. Só não construímos tanto a três com o lateral-esquerdo. Construímos a quatro porque sabíamos que íamos ser capazes de ter sempre o lateral livre na nossa primeira fase de construção, pela forma como o Milan nos ia tentar pressionar. E foi isso que aconteceu praticamente durante todo o jogo, mas na primeira parte foi mais visível. Um grande trabalho. Ganhámos sem sofrer golos, também é muito importante para nós, num campo muito difícil. Contra um adversário a quem o Benfica nunca tinha ganho. Eu tinha dito aos jogadores que, nos seis jogos oficiais que o Benfica tinha feito, e jogos muito importantes e jogos de finais europeias também, a realidade é que o Benfica nunca tinha ganho contra este adversário. Independentemente de serem dois clubes gigantes na Europa e no mundo, a realidade é que o Benfica nunca tinha ganho. E, muitas vezes, este tipo de recordes difíceis de bater estão lá para alguém o conseguir. Era uma oportunidade para nós podermos fazê-lo. E dar os parabéns aos jogadores", analisou.
"Quando entrei no estádio, quando acabámos de chegar e fomos ao relvado, senti algo de especial e diferente. Aquela receção dos adeptos para connosco e para com os jogadores, acima de tudo, foi diferente. Foi boa demais. E acho que eles retribuíram com um grande trabalho. É muito bom sentir que aqueles mais de cinco mil adeptos que estavam aqui hoje, em Milão, podem estar neste momento a festejar uma grande vitória do Benfica. Mas, novamente, são só três pontos. Começámos da melhor forma. Já vamos no sétimo jogo nesta competição. É incrível, em setembro. Mas agora começou uma nova fase para nós. São só três pontos. Começámos com o pé direito e agora há que descansar para preparar o próximo", acrescentou, referindo-se ao incessante apoio dos Benfiquistas que se deslocaram ao Estádio San Siro.
Num triunfo com várias respostas individuais de relevo, Trubin e Kamiński mereceram destaque. Marco Silva valorizou o trabalho diário de ambos e salientou a forma como aproveitaram a oportunidade em Milão, com o guarda-redes a contribuir para a baliza inviolada e o internacional polaco a aliar rigor tático a um dos golos da noite.
"Fazem um trabalho que qualquer profissional sério tem de fazer. Simples como isso. Eu tenho vindo a falar, mas eu disse-vos que, independentemente da insatisfação, o Trubin vinha a trabalhar muito e bem. E isso é o mais importante para mim. Um excelente jogo da parte dele. Só demonstra a qualidade que tem. Um jogo em paz. Um jogo em que foi comandando como tinha de ser e que ajudou a manter a baliza a zero, como todos os restantes elementos. E o Kamiński com um grande jogo, um grande jogo tático da parte dele. É um ala que tem a capacidade, depois, de fechar a cinco, se nós precisarmos de fechar a cinco. Possivelmente, no nosso plantel, é o ala com mais capacidade para o fazer. E nós sabemos que, quando o campo está mais aberto, com adversários que se expõem mais, em jogos deste género, ele tem potencialidades que nós podemos explorar. E foi isso que fizemos hoje. Estou feliz por ele, porque tem sido um início de caminhada num clube da dimensão do Benfica, o que nem sempre é fácil também. E estou feliz por ele porque fez um grande trabalho. Tem vindo a trabalhar. Em alguns momentos, as coisas não lhe correram tão bem. Tem jogadores de grande nível também a lutar pelo espaço com ele. Mas a realidade é que, quando a oportunidade chega, e chegou para ele, ele tem de fazer o que fez hoje. Foi decisivo. Ajudou a equipa com e sem bola e acabou por fazer um golo numa excelente finalização", elogiou.
As boas respostas em Milão aumentam também o leque de opções para o compromisso seguinte, ante o FC Porto, e o técnico das águias acolhe essas "dores de cabeça" com satisfação.
"São muito boas. São muito boas e os jogadores sabem isso. Eu disse-vos que não estava muito na nossa cabeça, independentemente de vocês não acreditarem, e eu percebo que não acreditem, o jogo do próximo domingo. Nós tivemos muitos cuidados porque, em 11 dias, não queríamos pôr o mesmo onze a jogar quatro jogos. Corríamos alguns riscos de lesão e nós não os quisemos correr. E, ao mesmo tempo, também quis passar uma mensagem de confiança a quem trabalha tão forte e não tem estado nos jogos, não tem sido decisivo em muitos jogos. Independentemente disso, alguns deles ajudaram-nos muito no último jogo com o Gil Vicente. Por exemplo, o Claudio [Echeverri], que nos ajudou muito... Eu estava a querer pô-lo no jogo e não era, possivelmente, o jogo para o pôr hoje. Está mais do que pronto para ajudar a equipa também e hoje nem sequer entrou. Mas isto faz parte. São muitos jogos que aí vêm e nós vamos ter o último desta fase, que tem sido muito complicada em termos de número de jogos para nós, mas à qual a equipa tem respondido bem. Temos de ter o último no domingo e depois vem uma paragem longa. Infelizmente, vamos estar quase sem jogadores, mas vem uma paragem longa para depois recomeçarmos novamente. Mas agora é descansar. Não vamos ter muito tempo para celebrar, não faz sentido. É bom para os adeptos agora celebrarem e nós descansarmos. Amanhã [quinta-feira] viajamos para Lisboa para começarmos a preparar o próximo", salientou, antes de seguir para a conferência de imprensa.
| Nove alterações, riscos assumidos e resposta brilhante |
| "Acaba por não ser uma noite perfeita, porque é muito difícil haver perfeição no futebol e na vida. Foi uma noite muito boa para nós, sem dúvida. Eu sabia que, claramente, estava a correr alguns riscos. Quando se mudam nove jogadores de um jogo para o outro, há grandes riscos que estão lá, independentemente da competição. Se for numa Taça de Portugal, se for numa Taça da Liga, num jogo de Campeonato também. Num jogo desta dimensão, os riscos também são muito grandes. Em termos motivacionais, são um pouco menores porque, naturalmente, num jogo destes, a motivação está nos píncaros. Não há muito a fazer para motivar os jogadores. Há muito mais trabalho tático para se fazer. E, nesse aspeto, os jogadores estiveram brilhantes. E, por aí, dizer que foi uma noite muito boa. Não foi perfeita. Acho que temos muitas coisas a melhorar. Hoje demonstrámos isso novamente, que há muito a melhorar. Em alguns momentos do jogo, temos de ter a capacidade de defender um bocadinho mais alto do que defendemos em alguns momentos na segunda parte. Tomar decisões um pouco diferentes e podíamos ter dado azo a criar ainda mais oportunidades do que criámos. E essa é que é a realidade. Mas começar por dar os parabéns aos jogadores. Foram extraordinários na forma como, num registo um pouco diferente... E nós começámos esta semana a falar sobre isso também, que há momentos em que tem de ser num registo um pouco diferente. E nós, com umas questões táticas também um pouco diferentes que hoje apresentámos, especialmente no posicionamento do Kamiński sem bola, e os jogadores foram extraordinários na forma como perceberam, com dois dias de trabalho de um jogo para o outro, e conseguiram executar também no jogo." |
| Golo cedo, solidez defensiva e gestão da fadiga |
| "O golo cedo ajudou-nos, não há que esconder. A forma como marcámos cedo trouxe-nos aquela confiança e tranquilidade para depois encarar o jogo já de outra forma. Explorámos sempre muito bem, principalmente na primeira parte, aquilo que eram os espaços dados. Na segunda parte fomos perdendo algumas bolas que não poderíamos e não deveríamos, porque senão ainda tínhamos criado mais. E, defensivamente, estivemos sólidos. Não deixámos o Milan criar muito, um pouco mais na segunda parte. Eu esperava já alguma fadiga em alguns jogadores, alguma falta de energia, porque, olhando para a nossa equipa hoje, alguns destes jogadores jogaram pela primeira vez 90 minutos. O Souffian [El Karouani], o Circati, o próprio Dodi [Lukebakio]. Muitos jogadores. O próprio Kamiński já não jogava há algum tempo, independentemente de ser um jogador muito físico não se notou tanto. Notou-se alguma falta de energia depois no [Jhon] Durán também. O Fredrik [Aursnes], como vocês sabem, está a chegar. Portanto, eu sentia que isso ia acabar por acontecer. Não podemos fazer as substituições todas, senão tinha feito ainda mais. Mas a realidade é que, de uma forma geral, a equipa fez um excelente trabalho." |
| Vitória histórica para os adeptos num ambiente especial |
| "Ganhar contra o Milan não é fácil. O Benfica é um clube enorme, como o Milan também o é. Mas a realidade é que é a primeira vez que o Benfica ganha em jogos oficiais ao Milan. Nós tivemos essa conversa também no último meeting, antes de sairmos para o estádio. E eu tive bons feelings. E um deles foi quando cheguei ao estádio e fui ver o relvado, juntamente com os jogadores. Aquela receção que os adeptos do Benfica fizeram aos jogadores naquele momento... É algo especial. Sente-se algo especial naquele momento. E poder retribuir com os três pontos, para nós, é fantástico." |
| Sem receio de encarar os adversários |
| "Em relação a sermos candidatos ou favoritos [à conquista da Liga Europa], eu não vou entrar por aí. Eu disse na minha apresentação que um clube como o Benfica, se estiver na fase de liga da Liga Europa, pela sua dimensão, mas estão lá outros com grande dimensão também, tem de se apresentar com grandes aspirações e grandes ambições. E essas são as nossas. Nós já jogámos seis jogos para estar aqui e agora não faz sentido andarmos aqui com receio de jogar futebol ou com receio de encarar os adversários como encarámos nesta noite. Não vai ser sempre assim. Eu sei. Estou já a dizer com antecipação. Mas nós vamos tentar sempre jogar para ganhar e ir o mais longe possível na competição. Ir o mais longe possível é chegar ao último jogo. É essa a nossa ambição. Se iremos conseguir ou não, temos de ver no final e fazemos as contas no final. Mas é essa a nossa ambição. Deixar bem claro que há muitas e grandes equipas também nesta competição. Equipas que têm um poderio enorme financeiro para chegar e comprar quase quem querem. E nós temos de ter essa noção também. Mas a realidade é que fizemos um grande trabalho." |
| Dúvidas que ainda vão aumentar |
| "Eu tenho tido algumas. Não tenho demonstrado tanto no onze, mas eu tenho tido algumas. E é bom sinal. É óbvio que, quando temos repetido muitas vezes o onze, não dá tanto a entender isso. Mas é bom ter dúvidas. E os jogadores têm-me colocado essas dúvidas. Eu acredito que, daqui a um mês, dois meses, ainda me vão criar mais, porque muitos deles vão estar a um nível físico diferente e vão-me criar mais. Não tenho a menor dúvida disso. Isso é bom. É bom para mim. É algo que eu quero realmente ter e, na minha forma de ver o futebol, só faz sentido assim. Um clube que joga quatro competições e que tem aspirações nas quatro competições não pode ter só 13, 14 ou 15 jogadores. Isso não existe. Os jogadores às vezes não compreendem tão bem, mas, em alguns momentos, nós também temos de lhes dar a confiança de que acreditamos neles. E nesta noite foi-lhes dada essa mesma confiança. Não é fácil mudar da forma como nós mudámos. E eles responderam muito bem, deixaram-me satisfeito e vão-me criar ainda mais dúvidas. Porque temos jogadores de qualidade que se estão a adaptar ao nosso clube, jogadores que não tiveram o melhor começo. O jogo do Kamiński hoje é um bom exemplo. Este tipo de jogos é muito mais para o tipo de jogador que ele é do que jogos em que as equipas estão num bloco muito baixo, em que muitas vezes nós jogamos dessa forma. O trabalho que ele fez em termos táticos, quase a fechar uma linha de cinco também, demonstra isso tudo, que ele tem essas características. O tipo de jogos em que nós vamos estar mais em cima do adversário já não será tanto para ele. E estamos cá nós para ir gerindo da forma que temos de gerir." |
| Razões para a troca de centrais |
| "É muito simples. O Lenglet tem muito mais jogos do que o Tomás [Araújo]. Começou a jogar desde o dia 23 [de julho] e praticamente só descansou um jogo. Tem muito mais minutos. A idade do Tomás é diferente da idade do Lenglet também. E todas essas questões tiveram um peso na nossa decisão. Acabámos por não ter aquela saída de pé esquerdo de que nós gostamos e que é importante para nós. Mas vocês viram também hoje que construímos muito mais a quatro do que a três. Temos vindo a construir muito mais a três, com o Dahl mais posicional. E hoje, como tínhamos o Dodi [Lukebakio] à direita, não íamos ter o nosso lateral tão subido num primeiro momento. Também, estrategicamente, sabíamos que iria ser importante termos os dois laterais um pouco mais baixos na primeira fase de construção. Na primeira parte isso foi visível. Praticamente encontrámos sempre o Souffian [El Karouani] ou o Banjaqui sozinhos quando rodávamos o sentido do jogo. E optámos desta forma por todas estas questões. E muito a ver com a questão dos minutos, porque o Lenglet tem vindo a jogar muito mais do que o Tomás." |
| Conversa com Rúben Amorim |
| "A relação que eu tenho com o Rúben é muito boa. Ele sabe que, sempre que não for contra mim, estarei a torcer por ele. E ele, naturalmente, faz o mesmo. De certeza que há um respeito muito grande entre nós. E, naturalmente, o que falámos fica connosco. Mas não foi nada de extraordinário, nada de mais. Muito mais a ver com questões pessoais e de família do que propriamente em relação ao jogo." |
| As muitas batalhas que há para ganhar |
| "É muito fácil [controlar a euforia]. Nós começámos muito bem a fase de liga da Liga Europa. Simplesmente isso. Como disse, uma vitória histórica. Dois grandes clubes europeus a defrontarem-se. Já se defrontaram em finais europeias. Mas a realidade é que, em jogos oficiais, o Benfica nunca tinha ganho. E fica este bom gosto de termos conseguido. E simplesmente isso. Três pontos. Começámos com o pé direito esta fase. Eu sei perfeitamente o grupo de trabalho que tenho a trabalhar comigo. Eles precisam de confiança. Mas são humildes o suficiente para perceber que estamos no começo. Conseguimos três pontos. Tivemos uma vitória muito boa. Pudemos dar um bom feeling aos nossos adeptos – mais de cinco mil aqui em Milão é extraordinário. E simplesmente isso. Hoje vamos descansar. Amanhã viajamos para Lisboa. Não há tempo, sequer, para celebrar absolutamente nada, porque foram três pontos. Há tempo, sim, para tentar usar o máximo de tempo que temos até ao jogo de domingo [frente ao FC Porto], que será mais um jogo muito importante. E para fechar este primeiro ciclo da época, que tem sido, em termos de jogos, muito desgastante para nós também. Mas os jogadores têm respondido muito bem. E tenho a certeza de que não há aqui euforia absolutamente nenhuma. Há, sim, satisfação e realização pelo bom jogo que fizemos. Pela resposta muito boa. Uma equipa que mudou nove jogadores de um jogo para o outro. Simplesmente isso. Eu não vou precisar disso, mas toda a gente tem de ter a calma suficiente para perceber que eu disse, na altura do jogo com o Gil Vicente, que muitas batalhas pela frente iremos ter. E não tenho dúvida nenhuma de que vamos tê-las, mesmo ganhando este jogo." |
| Dimensão do Benfica e responsabilidade de representar o Clube |
| "O Benfica é um clube enorme e com uma história muito rica. Para mim, não é propriamente algo novo. É a primeira vez que treino o Benfica, mas, enquanto treinador português, sei o que significa estar à frente de um clube como o Benfica e ocupar esta posição. Em termos do impacto pessoal, nada mudou. Pareço um pouco jovem, mas tenho experiência e maturidade suficientes para saber o que significa estar na posição em que estou neste momento. E, claro, aquilo que quero é apenas uma coisa: tomar sempre as decisões certas, sempre que tiver de o fazer. Sempre a pensar no que é melhor para o Clube e em fazer com que o Clube siga na direção certa. Isso é o mais importante para nós. É um clube enorme, com um apoio extraordinário e também com uma história enorme. E todos nós estamos aqui para trabalhar em prol do Benfica e para fazer o melhor pelo Clube." |